Crianças em risco

Que "Lares" de Acolhimento?

 

A realidade expõe ao longo dos tempos a existência de crianças que os

pais abandonam, que as instituições acolhem (ou recolhem), que

muitas famílias querem adoptar e algumas que efectivamente adoptam.

Hoje, para além dessas crianças, outras há que têm pais que não as

abandonam mas que não sabem ou não conseguem cuidá-las.

Hoje, ainda, sobressaltam a sociedade portuguesa mil dúvidas sobre as

instituições que se tornam os "lares alternativos" destas crianças.

Apresentamos duas respostas que emanam da mesma sociedade em

que vivemos e que antes de todas as perguntas, encontraram num

modelo de lar pequeno (15 – 25 crianças), a filosofia de acolhimento de

crianças entre os 4 e os 18 anos. Centradas na educação destas

crianças para as duas instituições – "Florinhas da Rua" e "Santa Casa da

Misericórdia de Lisboa" – subsiste uma mesma preocupação por resolver

com cada criança ou cada grupo de irmãos:

Como devolver-lhes a (sua) família a que têm direito?

 

As "Florinhas da Rua"

 

Reportagem de Teresa Oliveira*

 

Naquela segunda-feira de manhã, quando liguei o computador, tinha à minha espera um «e-mail» em que, em nome das Florinhas, se pediam famílias de apoio para quatro crianças. Passadas poucas horas recebia um telefonema a convidar-me para fazer este trabalho. Não há coincidências? Neste caso parece-me que não.

Numa altura em que o «escândalo da Casa Pia» nos deixa uma angustiosa dúvida sobre a protecção que é dada às crianças mais desfavorecidas – exactamente dentro do sistema que as deveria abrigar –, foi bom saber das Florinhas da Rua, do seu trabalho, do seu empenho e do seu carinho. E, por outro lado, é igualmente animador saber que o «e-mail», um mês e meio depois de ter começado a circular, deu abundantes frutos. As quatro crianças já têm as suas famílias de apoio, há uma lista de espera de outras 120 que se também se disponibilizaram e os telefonemas de mais voluntários continuam a chegar.

Instaladas no Campo dos Mártires da Pátria há quase oitenta anos – tendo ganho um novo fôlego em 1983 –, as Florinhas têm como objectivo recolher crianças da zona de Lisboa que estejam em perigo, mas sem nunca perder de vista os pais. Aqui, muito é feito directamente com os «meninos», como são sempre designados, mas, explicam as responsáveis, «o grande trabalho é com as famílias». Para se conseguir a desejada reintegração, para tirar todas as consequências da máxima «Somos o mais possível contra retirar as crianças da sua família», é preciso resolver os problemas na base, «curar» o que perturba o funcionamento do núcleo familiar.

Entretanto, enquanto o regresso não é possível, são cultivados os laços entre filhos e pais e, regra geral, os meninos vão para as suas casas nos fins-de-semana, nas férias, no Natal, na Páscoa. Sintomaticamente, aliás, muitos meninos chamam às Florinhas o «Colégio». E esta distinção é valorizada: «A "casa" é a casa dos pais», afirma Joana Simões Correia, a psicóloga da instituição.

Neste momento, as Florinhas recolhem 25 crianças, meninos e meninas, a mais nova com quatro anos, a mais velha com 16. E dão apoio a mais outras 26 que também estiveram internadas mas que já voltaram para as suas famílias.

Desde o início dos anos 90 há ainda a «Casinha»: um apartamento onde cinco raparigas, maiores de 16 anos, vivem depois de sair do Campo dos Mártires da Pátria. São casos em que a reintegração familiar não foi possível e, por isso, quando atingem aquela idade mudam-se para uma casa que elas mesmas gerem, onde cozinham; que limpam, que arrumam. Ao mesmo tempo estudam ou iniciam uma actividade profissional e em princípio estão neste apartamento até atingirem a maioridade. Mas a regra não é fixa, o objectivo é dar-lhes apoio até garantirem a sua independência.

Em Agosto começou mais um projecto, com a duração de três anos. Chama-se «A minha Casa é o meu Lar» e foi criado no âmbito do programa «Ser Criança». Aqui o trabalho é feito com 21 menores que nunca estiveram nas Florinhas e pretende-se que seja uma alternativa à institucionalização. Uma alternativa que, ao ter como objectivo manter as crianças em casa, «responsabiliza os pais» e «tenta trabalhar as competências da família e fazer com que elas se organizem» resumem a psicóloga e a assistente social ligadas ao projecto, Filipa Alvarez e Cristina Cortiço.

E já há mais outra iniciativa na calha. «A fase a seguir será abrir uma "Casinha" para jovens rapazes» diz Judite Martins Alves, a directora técnica («responsável técnica», como prefere), um dos membros do Conselho de Administração e o farol da casa. É a «D.ª Judite», como é carinhosamente tratada.

 

Para as Florinhas só vão meninos que tenham famílias com uma «luz acesa no fundo do túnel», diz Judite Martins Alves. As crianças para quem não parece haver outra solução a não ser o encaminhamento para a adopção ou para famílias de acolhimento são dirigidas para outros projectos.

Um menino chega ali por solicitação da Santa Casa da Misericórdia, de instituições da Segurança Social, através de pedidos de comissões de protecção de menores em perigo… Umas vezes os pais dão o seu consentimento para o internamento mas quando tal não acontece – ou mudam de ideias – é necessária uma intervenção judicial.

Depois de sinalizada a situação de risco, e após o pedido de internamento, uma equipa das Florinhas vê «no terreno» se a situação se enquadra no objecto da instituição. Na prática, e na maior parte das vezes, a experiência mostra que o trabalho de recuperação acaba por ser feito com as mães; os pais costumam estar mais longe, quando não mesmo ausentes. Tenta-se ganhar confiança, quase conseguir a amizade que permita uma intervenção directa no lar (às vezes tão básica como ajudar nas limpezas domésticas) ou o à-vontade para explicar a importância da higiene corporal.

Com os progenitores tenta estabelecer-se um contrato. Verbal, claro, mas com um conjunto estabelecido de regras: que estejam presentes na vida dos seus filhos a «100%»; que se co-responsabilizem pelos projectos de vida das crianças; que se esforcem por dar uma solução aos seus próprios problemas. Neste último campo, o objectivo é, por exemplo, tentarem encontrar um trabalho, se estiverem desempregados; fazerem curas de desintoxicação; procurarem conseguir uma casa com condições. Tudo isto em conjugação com as assistentes sociais, e no contacto entre as diversas instituições, na tentativa de resolver o(s) problema(s) daquela família.

Aliás, explica Madalena Neves, uma das duas assistentes sociais das Florinhas, estas «trabalham mais com as famílias do que com as crianças». O seu contacto com os meninos é mais intenso nos casos em que foi possível a recuperação familiar, quando estas «são reintegradas».

Outro dos trabalhos fundamentais é «estimular a auto-estima das famílias», continua Judite Martins Alves.

Aliás, apesar de serem várias as problemáticas que levam os pais a colocarem os seus filhos em perigo, o tronco comum destas situações é a «fragilidade das pessoas», considera, «a falta de energia, a falta de vontade de lutar, a descrença». Muitas vezes já os pais passaram pelo mesmo modelo, foram estas as «lições» que receberam dos seus progenitores, em modelos repetidos ao longo de gerações.

Por outro lado, os problemas económicos já foram mais importantes do que agora; ou, pelo menos, não custam tanto a resolver. Assiste-se, pelo contrário, a «uma valorização económica pouco acompanhada de valorização pessoal».

 

Desde 1983 que passaram pelas Florinhas cerca de 200 crianças, aproximadamente metade de cada um dos sexos. No âmbito do projecto «A minha Casa é o meu Lar» a socióloga Maria Manuel Rosário está a tentar estabelecer as trajectórias de vida dos meninos que ali foram vivendo, «ver o impacto que a institucionalização teve na vida das crianças». O trabalho ainda está a ser feito e por isso os dados entretanto apurados são provisórios e sujeitos a confirmação.

Mas já dão algumas indicações importantes. Até ao momento, a razão preponderante para o internamento das crianças são as famílias disfuncionais, em que há situações de maus tratos, de comportamentos aditivos, de negligência, de abandono dos menores. Em muitíssimo menor escala estão as dificuldades sócio-económicas ou a doença dos pais.

E também há indicadores sobre o sucesso do trabalho feito nas Florinhas. Animadores, aliás: num universo que inclui os meninos que ainda estão no Campo dos Mártires da Pátria, perto de metade foi reintegrado na sua família (nuclear ou alargada). Os outros destinos mais importantes são a ida para famílias de adopção ou acolhimento, ou para outra instituição.

Para prosseguirem o seu trabalho as Florinhas tentam que as crianças ali encontrem «um ambiente tão próximo quanto possível do meio familiar a que têm direito», diz a psicóloga Joana Simões Correia. E, apesar de o prédio onde estão instaladas já ter visto passar vários séculos e não ter as condições ideais para receber crianças, está tudo limpíssimo, alegre, acolhedor.

E, tal como deveria acontecer nas suas casas – e em função das respectivas idades – os meninos vão participando nas actividades domésticas: fazem as camas, põem a mesa, ajudam a arrumar a cozinha. Dão corpoao provérbio que dispõe que «deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer»; no máximo às dez estão na cama e acordam às sete da manhã. Vão para a escola, fazem os trabalhos de casa, têm explicações, brincam –cada criança tem um voluntário que está com ela uma vez por semana para a ajudar nos estudos ou então «apenas» para brincar.

Conta Madalena Neves que «muitas vezes as crianças não conseguem transpor para casa o que aprendem nas Florinhas» e, às vezes, só num fim-de-semana, «"adaptam-se" logo à sua casa: deixam de se lavar, dormem vestidas»… Mas elas continuam a tentar que o fundamental ganhe raízes naquelas meninas e meninos…

 

Tal como a maior parte das crianças que está nas Florinhas, o António (nome fictício) está internado com os seus irmãos. A regra ali são as fratrias e, sempre que haja vagas, procuram inserir-se grupos de 2, 3, mesmo 5 irmãos. Porque se há problemas em casa, se sofre um, «normalmente sofrem todos os irmãos» e tentam-se o «conjunto» vá para o mesmo destino de acolhimento. Aliás, a regra da entrada nas Florinhas entre os 3 e os 12 anos «não significa que não possa haver excepções, nomeadamente no caso de irmãos» diz a responsável técnica. Nestes casos os grandes problemas acontecem com os adolescentes, que rejeitam a ida para uma instituição.

O António responde-me que ali está há «cinco anos», para logo acrescentar: «E também quer saber os meses?». Conta pelos dedos e conclui: «Há cinco anos e sete meses». Quer ficar nas Florinhas, quer ir para casa?

«Vou para casa» assevera, «quando? Isso agora é que não sei…». De estranho, naquilo que diz, só a sua relação com os irmãos. Quando lhe pergunto se é melhor ali estar com eles, hesita… porque às vezes lhes bate e os magoa, desvenda. Mas as coisas podem não ser assim, pode ter mais cuidado, insisto. Mas para o António esta parece ser uma inevitabilidade.

Tem onze anos e está no quarto ano do ensino básico. Apesar de ter tido um começo complicado está a recuperar muito bem e, nos testes que já fez este ano, a regra foram os «Bom». E o que é que gosta de aprender na escola? «Gosto de matemática», responde o António, «tem a ver com um jogo que eu gosto muito, o xadrez».

Esta pode ser uma criança excepcional – guarda, para mais um exemplo, um livro «com 50 poemas de amor escritos» – mas todas as suas potencialidades poderiam ter sido desperdiçadas se não tivesse havido uma intervenção externa no seu núcleo familiar.

Os problemas na família do António foram sinalizados no início da década de 90. O seu irmão mais novo foi internado num hospital de Lisboa e aí se detectou o seu mau estado geral de saúde. Era uma criança desnutrida, pouco desenvolvida e negligenciada. Um trabalho começou a ser desenvolvido com esta família que precisava desesperadamente de ajuda: eram muitos filhos; o pai só às vezes estava presente, tinha problemas de alcoolismo, e nem sempre trabalhava; a mãe também tinha uma situação laboral instável; vivam numa barraca sem quaisquer condições, sem saneamento, água canalizada e luz. Eram uma família desorganizada que vivia num ambiente de ausência de higiene e de insalubridade. Ao longo dos tempos foi-se verificando que o apoio psico-social, de saúde, limpeza, escola e actividades de tempos livres para as crianças, não dava os frutos esperados. Não havia uma evolução significativa.

Assim, é aberto um processo em Tribunal onde se decidiu pela institucionalização das crianças, que acabaram por ser acolhidas nas Florinhas.

Na véspera das crianças ali passarem a viver o pai sai de casa. A mãe beneficiou com esta situação, fazendo progressos na sua vida, até a nível de imagem. Os miúdos têm pouca relação com o pai.

Entretanto, as assistentes sociais das Florinhas pressionam a Câmara de Lisboa e conseguem que à família seja atribuída uma casa com melhores condições. É feito um grande investimento na mãe, que entretanto passa a ter uma situação laboral estável, sendo agora considerada uma boa trabalhadora, muito dedicada. E as crianças têm uma relação muito grande com ela, estão muito dependentes. Final feliz?

Ainda não. A mãe continua a sofrer de uma grande desorganização em termos pessoais, «as suas melhorias não avançam em tempo útil para as crianças» explica Joana Simões Correia.

Mas, entretanto, o António consegue fazer planos para o futuro, capacidade que não têm muitas das crianças que estão na mesma situação. E quando lhe pergunto o que quer ser quando for grande, responde: professor de ginástica, o inevitável jogador de futebol ou «professor de artes marciais». Porquê, pergunto? «Para ensinar as pessoas a defenderem-se».

 

A São é uma das duas educadoras das 25 crianças que estão nas Florinhas. Trabalha ali há nove anos, 24 horas por dia, cinco dias por semana. As educadoras acordam os meninos, deitam-nos, velam pela sua higiene, pelas suas refeições. E brincam com eles, apaziguam as zangas e birras, controlam os trabalhos de casa, impõem disciplina, acalmam os medos, escolhem os programas que eles vêem na televisão. Ali não se gosta muito de que se façam este tipo de «confusões» mas é claro que são as segundas mães daquelas crianças. E a quem «custa sempre» quando chega a hora de os meninos seguirem as suas vidas. «Mas é uma alegria», diz Conceição Ferreira, «se sabemos que vão para uma situação melhor».

De qualquer forma deixa-lhes «as portas da casa sempre abertas» e a experiência já lhe ensinou que se «demoram a aparecer é porque as coisas estão equilibradas». Também ajuda o facto de certos laços não se quebrarem com facilidade: os ex-internos vêm-lhes apresentar os namoros, quando casam mandam convite e não se esquecem de ir às Florinhas mostrar os seus rebentos.

No seu trabalho uma das tarefas complicadas é «dividir as atenções» por todas as crianças, «evitar os ciúmes».

Aos meninos recém chegados procuram impor algumas regras, pouco a pouco, até porque «alguns nunca as tiveram». E já não foi apenas uma vez que a São ouviu: «"Não! Você não é a minha mãe!", para alguns é a primeira defesa», pensa.

Mas, pouco a pouco, foi aprendendo tácticas para lidar com as crianças, para combinar a disciplina com o amor. E a sua expressão enche-se de orgulho ao contar a visita de um «menino que quando veio cá mostrar o filho disse que ele iria ter tudo o que ele não teve». «Isto mostra que dentro dele ficou alguma coisa, não é?», remata um pouco comovida.

 

Numa tarde de Dezembro de 1917 nasceram as «Florinhas da Rua». No ano de 1926 a condessa de Rilvas (que à época era a presidente do Conselho de Administração da Obra das Florinhas da Rua) descrevia assim, num opúsculo, o episódio fundador da instituição: «Sua Ex.cia Rev.ma o Senhor D. João Evangelista de Lima Vidal, então Arcebispo de Mitilene e Vigário Geral do Patriarcado, hoje Bispo de Vila Real, ia pela rua e saiu-lhe ao caminho a pedir esmola uma pequenita que não tinha decerto mais do que dez anos. A criança tinha um tal ar de sofrimento que um coração menos sensível que o do bom e caridoso Prelado não teria ficado indiferente; dizer que não era impossível. O Senhor Arcebispo deu esmola e seguiu caminho; mas não sei que pensamento íntimo fez com que êle voltasse para trás e viu então com surpresa que a pequena já parecia outra, já não parecia a mesma carita esfomeada de pouco antes. Ria e dava pulos. Dir-se-hia que lhe tinham arrancado de repente uma máscara. E, ao ver isso, o Senhor Arcebispo não pôde deixar de pensar em como aquela criança, pequena ainda, era já tão sabida em armar á caridade. Voltou até ao sítio onde a pequena estava , pôs-se-lhe a fazer perguntas e teve ocasião de perceber que naquele caso a miséria moral era ainda maior do que os sofrimentos físicos. Naquela noite a imagem daquela scena voltou-lhe como uma obsessão, e na manhã seguinte a obra das Florinhas da Rua já estava criada…».

A instituição começou com a ajuda de algumas voluntárias e numa cave da Rua Camilo Castelo Branco onde «uma única sala dava para refeitório, aula, casa de banho e recreio» escreve a condessa. Poucos anos depois as meninas passaram para as actuais instalações no Campo dos Mártires da Pátria onde, todavia, chegaram a estar «setenta e tantas empilhadas como sardinha em tijela». No início, as Florinhas funcionavam em regime de externato, esperando-se que «viesse a dar bons resultados, que afinal não deu». E conta ainda a condessa que «veio um acontecimento» obrigar a uma mudança de rumo: «Um dia uma das nossas pequenas saíra do externato às 6 h. da tarde e fôra com a mãe pedir esmola para ao pé do Teatro Nacional. Às 2 h. da madrugada foram ambas presas pela polícia e levadas depois para Belém, para o Refúgio. Dois dias depois fui citada para a ir reconhecer.

À custa de muitos esforços e em seguida a um inquérito que trouxe á supuração grandes podridões, a Assistência pública ordenou que a criança fôsse de novo entregue às Florinhas, mas com esta condição: tinha de ser interna. Foi assim que se fundou o internato. Passado pouco tempo acabou-se com o externato». No mesmo texto, a presidente do Conselho de Administração explicava ainda que «confunde-se muita vez o fito desta Obra com o de qualquer outro colégio ou asilo. Por essa razão fazem-nos muitos pedidos de admissão a que temos de dizer que não. As Florinhas não são um orfanato; querem actuar unicamente na camada social em que as crianças, sobretudo moralmente, precisam com urgência de respirar ares mais saudáveis». E considerava-se que se os resultados com as raparigas não eram «tantos» tal se devia «em parte à influência das famílias. As famílias só vêem as pequenas uma vez por mês, mas às vezes uma hora de conversa é o bastante para estragar um mês inteiro de internato», desabafava a condessa de Rilvas. Estava-se em 1926 mas já se falava na «educação profissional como forma de assistência». Assim, as internas aprendiam ofícios, remunerados, sendo que «metade do salário vai para o mealheiro das pequenas e a outra metade vai para os fundos da associação». Quanto ao mais, até 1983 viveram de doações e quotas.

 

Com o passar do tempo o trabalho das Florinhas da Rua foi evoluindo mas nos anos que se seguiram à revolução de Abril passou um período muito complicado. As funcionárias consideravam-na a «organização das senhoras ricas» e na instituição estavam muitas «meninas que não necessitavam de ali estar», lembra Judite Martins Alves.

Recorda ainda que em Novembro de 1983 uma das dirigentes da organização, Margarida Lencastre, vai ter consigo ao Tribunal de Menores de Lisboa, onde trabalhava na assistência social. Sabe que é sócia das Florinhas e pede-lhe que vá à Assembleia Geral onde ia ser proposto o seu encerramento.

Judite vai e quando é formalizada a proposta do fecho confessa a sua pena, lembrando a história das Florinhas e a carência de estabelecimentos do género. O padre que presidia à Assembleia lança-lhe um desafio: «Veio a esta Assembleia com mais duas assistentes sociais. Porque é que não vêm para cá?». Aceitaram as três: «Nem sabíamos como isto estava».

Mas tinha acabado de começar uma vida nova para as Florinhas da Rua. Fez-se uma «triagem das crianças, mantendo as que precisavam mesmo de ficar» e procedeu-se a uma reorganização. Daí para a frente a instituição iria ser mista e passou a tentar também como objectivo reintegrar as crianças na sua família. Em Janeiro de 1985 era feito um acordo com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – renovado no início do passado mês de Abril.

Primeiro eram 20 crianças, depois subiu para 25… e o resto da história já é conhecida. Talvez falte contar uma coisa: a D.ª Judite gostava de tirar as Florinhas definitivamente da Rua. Preferia que apenas se chamassem Florinhas. Mas na prática é já assim mesmo que acontece.

 

*Jornalista

 

Um Lar da Santa Casa

da Misericórdia de Lisboa

 

Texto de Isabel Gomes*

 

O Lar Rainha Santa, estabelecimento pertencente à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi criado em Setembro de 1998 e situa-se na freguesia do Coração de Jesus, na Rua Luciano Cordeiro nº 80, ocupando todo o segundo piso. Nele, tipicamente, residem quinze crianças de ambos os sexos, com idades que podem ir dos dois aos vinte e um anos. Esta diversidade da população residente obriga a uma gestão cuidada de admissões e saídas, tendo em vista a não existência de assimetrias – quer em idade, quer em sexo.

As crianças admitidas no Lar provêm do Centro de Acolhimento e Observação ou das Comissão de Protecção de Crianças e Jovens. A sua admissão é precedida de algumas visitas ao Lar para facilitar o processo de adaptação a uma nova realidade. Também as crianças aí residentes são preparadas para acolher os novos colegas, criando-se um espírito de inter-ajuda e cooperação.

Cada criança tem o seu projecto de vida definido ao fim de 3 meses de entrar no Lar. Este é discutido e elaborado pela equipa interdisciplinar do Lar, constituída pela Equipa de Educação, Assistente Social e Directora. Se a criança tiver capacidade e maturidade suficiente é chamada a manifestar a sua opinião.

Todas as crianças/jovens são informadas acerca do seu projecto de vida, para que este possa ser trabalhado com elas, tendo em vista a exequibilidade do mesmo.

Os pais também são envolvidos e/ou informados, na medida das suas capacidades.

Sempre que se considere fundamental, são também envolvidas outras equipas externas, ou porque podem fornecer dados que ajudem a decidir com maior conhecimento, aumentando assim a eficácia, ou porque irão ser parceiros quando se concretizar o Projecto de Vida, nomeadamente quando este é de adopção, autonomização ou reintegração na família de origem.

 

A EQUIPA INTERDISCIPLINAR

 

O processo de motivação da Equipa do Lar, vista como um conjunto de pessoas com a responsabilidade colectiva de criar um dado resultado final, é fundamental para a criação da coesão, sendo essencial a partilha e interiorização de pilares de sustentação:

 

Missão: "Proporcionar às crianças/jovens um ambiente adequado e securizante, procurando soluções para um bom desenvolvimento psico-afectivo e físico, com valores de referência e incentivo à auto-estima."

 

Visão: "Somos uma equipa reduzida com grande polivalência, empenhada numa melhoria contínua e orientada por objectivos."

 

Posicionamento: "Posicionamo-nos como uma alternativa à família, procurando, em conjugação com indivíduos e entidades, garantir a inserção sócio-familiar das crianças/jovens."

Tendo em vista garantir a obtenção de resultados, os objectivos da Equipa, bem como a estratégia para os obter, são claramente definidos no Plano de Actividades anual, que, em acréscimo, se demonstra como uma ferramenta de apoio à evolução das tarefas.

No caso específico de um Lar, tendo em vista atender todas as necessidades relacionadas com as Crianças/Jovens, apresenta-se como necessária a presença de várias valências e competências: Director; Equipa de Educação; Técnica de Serviço Social; Psicólogo; Equipa de Apoio.

A orientação por objectivos, para que seja efectiva, obriga ao acompanhamento das acções e à monitorização das evoluções. Com esse objectivo, são realizadas reuniões semanais de acompanhamento, que, por vezes, incluem formação interna. Procurando um envolvimento alargado, são ainda realizadas reuniões mensais com todas as crianças residentes no Lar. O envolvimento de todos é fundamental para se criar um sentimento de conjunto.

No sentido de garantir a responsabilização da Equipa de Educação e o bom acompanhamento individualizado das crianças, estas foram divididas por todos os elementos. Cabe, no entanto, ao Técnico de Educação, uma maior responsabilidade para alguns níveis, nomeadamente, escolar e saúde.

O Relatório de Actividades, reportando a um ano civil, permite condensar toda as acções concretizadas nesse período, transformando-se num óptimo instrumento de avaliação e acompanhamento.

Esta metodologia de actuação conduz à criação de valores de referência, num processo que visa o alinhamento e conjugação das iniciativas individuais, como suporte à concretização dos objectivos estabelecidos para a Equipa, vista como um todo.

 

PROCEDIMENTOS

 

Tendo em atenção que um dos aspectos críticos que condiciona o atingir de objectivos é a organização, foram criados Procedimentos de actuação.

A finalidade primordial desta abordagem será indubitavelmente melhorar a qualidade dos serviços prestados, concretizando plenamente as necessidades das crianças e jovens residentes no Lar através da melhoria sistemática das actividades e processos.

Pressupõe-se uma mudança no sentido de: maior disciplina nos procedimentos; maior confiança nos instrumentos de gestão; maior confiança junto dos colaboradores; maior confiança junto das partes envolvidas; maior transparência nas decisões.

Também para os utentes os resultados são evidentes: mais homogeneidade na prestação dos serviços, maior transparência, maior confiança na instituição e melhor imagem da qualidade dos serviços prestados.

Os procedimentos estão compilados num Manual que está disponível para toda a Equipa, o que permite assumir uma atitude pró-activa face às situações.

Foi igualmente patente a necessidade de criação de Formulários, tendo em vista a sustentação dos Procedimentos, bem como o controlo do seu cumprimento.

 

O QUE TRANSMITIMOS?

 

O que transmitimos para as Crianças/Jovens está enquadrado nos objectivos (Missão) estabelecidos para o Lar Rainha Santa, podendo ser tipificados em:

– Normas e Valores

– Regras

– Autonomia

– Espaços de Lazer e Integração Social

É necessário habituar as crianças a cumprir regras, que lhe proporcionam estabilidade e segurança, fornecendo-lhe, assim, uma preparação para a vida.

A autonomia é fomentada através da responsabilização para a execução de pequenas tarefas pelas Crianças/Jovens, compatíveis com o seu nível etário.

O lazer é de grande importância para o desenvolvimento e bem estar da criança. Ensina-a a viver em sociedade, a melhorar o seu relacionamento com os outros e a desenvolver o sentimento de pertença a um grupo.

As actividades praticadas no exterior têm-se revelado muito importantes e gratificantes, pois permitem contactos com crianças que têm outras realidades e proporcionam vivências enriquecedoras e inesquecíveis.

O Regulamento do Lar, documento agregador de regras e princípios, contem toda a filosofia do Lar, sempre tendo em conta a Missão da SCML, e os seus princípios orientadores. Nele estão contidos os direitos e deveres das crianças, dos pais e dos voluntários, bem como as funções de toda a Equipa. As crianças participaram na sua elaboração, quer sugerindo conteúdos, quer contribuindo para a parte gráfica.

 

FAMÍLIAS DE ORIGEM

 

As famílias de origem das crianças residentes nos Lares desresponsabilizam-se facilmente pelas mesmas, não assumindo as suas funções parentais, delegando-as, com a maior facilidade, na Equipa do Lar. Cabe aos técnicos ter em conta e identificar as competências das famílias, para as poder trabalhar.

Cada família constitui um caso único, tratando-se de um sistema em desenvolvimento com necessidades individuais e colectivas próprias. Actuar com uma família implica analisar o conjunto de contextos e sistemas envolventes, com os quais a família se relaciona. É necessário interagir com as famílias, fortalecendo-as, e levando-as a acreditar na sua capacidade, para que se processem mudanças positivas ao nível das redes de suporte social e informal.

A Equipa do Lar e a Equipa Local, tendo em vista o estabelecimento de planos de acção concertados, devem adoptar uma postura de trabalho em rede, assumindo responsabilidades bem definidas, tendo sempre em conta os interesses da criança.

 

PROJECTOS DE DESENVOLVIMENTO

 

Durante o ano de 2002, foi desenvolvido o Projecto "A Arte, os Sentidos e as Emoções" que teve como objectivo desenvolver, nas crianças e jovens, através da sua passagem e experimentação pelas várias formas de arte, a comunicação, a expressão e um entendimento multifacetado da realidade. Este projecto registou uma forte adesão por parte de todas as crianças e jovens residentes no Lar, o mesmo acontecendo com toda a Equipa interdisciplinar, sendo evidentes os benefícios demonstrados pela avaliação.

Em 2002, foi lançado também um projecto de "Desenvolvimento de Competências", pois na sequência do trabalho efectuado no Lar constatou-se uma clara desarmonia entre o potencial de desenvolvimento e os desempenhos efectivos nas diferentes áreas do desenvolvimento, das crianças e jovens residentes no Lar, situação esta que acaba por comprometer seriamente o seu crescimento integral e a sua futura inserção sociofamiliar e profissional, como cidadãos livres, úteis e de pleno direito, na sociedade que todos constituímos.

Finalmente, em 2003, foi lançado um Projecto de "Educação Intercultural" que tem por objectivo proporcionar a cada criança ou jovem o contacto com diferentes realidades culturais, o que irá sem dúvida enriquecê-las em termos pessoais e culturais, tornando-as mais tolerantes em relação à diferença e mais solidárias.

 

 

*Directora do Lar Rainha Santa entre 99.04.15 e 03.03.30.

Actualmente Directora da Direcção de Acolhimento e Desenvolvimento de Infância e Juventude.

 

Um testemunho

 

Um lar para mim, é uma casa onde estão várias crianças, como uma família, onde aprendemos a organizar a nossa vida e onde aprendemos a fazer as coisas no nosso dia-a-dia, para mais tarde quando nós sairmos termos um bom emprego e também saber organizar a nossa vida e ter a nossa casa.

 

A minha adaptação ao lar

 

Viver num lar é bom, porque ajuda-nos a ver como são as coisas num lar, e as coisas em casa com a família, mas eu até gostei de entrar para este lar, porque eu em casa não iria ter boas condições, por isso vir para este lar ajudou-me bastante. Na saúde e na escola, por isto estou satisfeito.

Graças à entrada para um lar tive oportunidade de ir para os trampolins e viajar para outros países em campeonatos.

Arranjei bons amigos, e sou jovem feliz. Obrigada a todas as pessoas que me ajudaram a chegar até aqui.

 

Sérgio, 17 anos, Maio de 2003

 

É necessário habituar as crianças a cumprir regras, que lhe proporcionam estabilidade e segurança, fornecendo-lhe, assim, uma preparação para a vida.

A autonomia é fomentada através da responsabilização para a execução de pequenas tarefas pelas crianças e jovens, compatíveis com o seu nível etário.

 

SCML – Revista Cidade Solidária Nº 10

 

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